A metodologia do positivismo e novas possibilidades da pluralidade metodológica em ciências humanas.
Resumo:
O presente artigo tem como objetivo fazer reflexões sobre a crise dos paradigmas nas ciências humanas no que se refere aos aspectos metodológicos utilizados, apresentando o positivismo como modelo metodológico soberano utilizado pelas ciências naturais, causando uma crise nesses paradigmas utilizados pelas ciências humanas por causar posteriormente alguns reflexos na natureza epistemológica dos processos de construção do conhecimento em ciências humanas na busca da verdade possível dos métodos nas ciências humanas comparando o conhecimento científico com a metáfora da flecha e da lança para atingir alvos mais longínquos e mais perto da realidade humana.
1 Introdução
Segundo Alves-Mazotti (1999) o panorama atual no que se refere à busca do conhecimento se apresenta extremamente complexo. A pesquisa em ciências humanas, no que tange seu aspecto metodológico necessita de algumas problematizações com relação ao positivismo como único modelo possível.
Para Guba (1990) paradigma é o conjunto de crenças que orienta a ação, e segundo Alves-Mazotti (1999) existem três paradigmas em pesquisa nas ciências humanas que são sucessores do positivismo: o construtivismo social, o pós positivismo e a teoria crítica.
O construtivismo social é baseado na fenomenologia e no relativismo enfatizando ações humanas e suas intencionalidades. O mundo vivido pelos sujeitos e a percepção de seus atores conforme a fenomenologia coloca entre parênteses as crenças e pressupostos procurando estudar o comportamento social fazendo a interpretação de seus significados, descartando de alguma forma as objetividades do conhecimento positivista.
Os aspectos metodológicos do construtivismo estão definidos através de construções individuais afinadas com a hermenêutica confrontadas com a dialética construindo um significativo consenso entre os correspondentes.
Podemos questionar a grande preocupação metodológica com a legitimidade atribuída a realidade social pelos seus diversos atores, mas como lacuna metodológica fica a resposta em como e por que esses significados são legitimados.
Conforme Alves-Mazotti (1999) o pós-positivismo corrobora a ideia do uso do método científico rígido a única forma de obtenção de conhecimento através do método experimental.
A teoria crítica aplica uma metodologia dialética com a função de transformar e aumentar a consciência crítica dos sujeitos, mas conforme Guba (1990) existem valores ideológicos em qualquer investigação que estarão presentes na manipulação dos resultados.
O positivismo talvez tenha sido incapaz de responder a um simples questionamento baseado em um olhar mais crítico de ciência: em que medida a ciência (isto é, a sua profunda crença na soberania do método cientifico) pode regular o que é estudado, por que meio, e os seus resultados? No que se refere as ciências humanas, não há resposta.
O positivismo nos deixa como herança não somente um conjunto de métodos, mas também a ideia de que para o entendimento do mundo seja necessário um método.
2 O Conhecimento Científico
O conhecimento científico é determinado por modelos tradicionalmente dominantes que estão intimamente ligados aos métodos utilizados pelas ciências naturais, que conforme Santos (2008) é um modelo totalitário, já que desconhece qualquer outra forma de conhecimento, ou seja, o método deve ser rígido impulsionando para objetivos focados naquilo que se pretende exato e natural.
Assim, Santos (2008) nos leva a refletir que não há a separação entre o natural, o exato e o humano, pois as ciências humanas explicam as exatas e como Fourez (1995) nos aponta que a conclusão daquilo que se é observado no método empírico depende da subjetividade do observador.
Para esse autor, o rigor do método se alinha ao rigor das aferições e medições que o mesmo propõe, e que dessa forma a natureza do objeto e a relação do conhecedor versus conhecimento podem se perder, minimizando o alcance do conhecimento, pois só deve ser relevante e importante aquilo que se possa quantificar, preferencialmente nos moldes cartesianos dividindo as questões até as suas mínimas partes, em quantas forem possíveis.
Corroboramos a ideia de Santos (2008) que aponta o comportamento humano como algo que não se pode ser explicado ou definido somente pelas características observáveis e objetivas, já que o que se observa pode se relacionar a inúmeros sentidos e representações diferentes.
Portanto, as ciências humanas são subjetivas e qualitativas, diferentes das ciências naturais, já que os fenômenos que as ciências humanas buscam explicitar são sociais e resultados de atitudes mentais, e por isso já vemos a necessidade de métodos de investigação especificamente diferentes, com critérios que definam a relação entre conhecedor e conhecimento diferentes nas ciências naturais.
Concordamos também com Santos (2008) que o olhar metodológico possível nas ciências humanas rompe com o positivismo e se aproxima muito dos processos fenomenológicos, já que o autor nos faz refletir que essa ruptura seja irreversível, já que o rigor metodológico pode nos esconder uma relativa compreensão do mundo limitando a velocidade e o percurso da flecha.
Necessitamos voltar simplicidade das coisas formulando questões igualmente simples, mas que sejam capazes de trazer a tona uma novos questionamentos.
3. O método nas ciências humanas
Para Aromowits & Ausch (2015) as ciências humanas sempre se preocuparam com a metodologia, se tornando na maioria das vezes uma obsessão. As questões em torno do método tem sido sempre uma preocupação desse segmento científico se utilizando do método com o mesmo olhar das ciências naturais para fundamentar suas considerações sobre as verdades buscadas.
Segundo esses autores, utilizam-se várias técnicas estatísticas, históricas, etnográficas para imitar o que muitos consideram como metodologias rigorosas das ciências naturais, mesmo que se tratando de ciências como sociologia, psicologia e outras disciplinas das ciências humanas.
Afirmam que essa tendência para privilegiar o rigor metodológico é considerado um sintoma de insegurança compartilhada nas ciências humanas sobre o status científico de suas descobertas. Segundo Popper (2004), muitos cientistas sociais concluíram que a tarefa das ciências sociais é construir uma ciência exata dos seres humanos e suas sociedades, evitando estritamente a metateoria. O dilema é que a ciência não pode fazer uma pergunta para a qual um algoritmo ou técnica não esteja disponível para dar a resposta.
Fourez (1995) apresenta como ponto de partida do método científico clássico do positivismo a observação fidedigna da realidade como sendo uma mera atenção passiva, somente um puro estado receptivo, como uma organização da visão que depende de pressupostos definidos anteriormente com a tendência de se ignorar obviamente os elementos que não fazem parte do meu saber sobre objeto observado:
Quando observo “alguma coisa”, é preciso sempre que eu “a” descreva. Para tanto, utilizo uma serie de noções que eu possuía antes; estas se referem sempre a uma representação teórica, geralmente implícita. Sem essas noções que me permitem organizar a minha observação, não sei o que dizer. E, na medida em que me faltaria um conceito teórico adequado, sou obrigado a apelar a outros conceitos básicos… (FOUREZ, 1995 p. 40)
O autor afirma também que observar é diferente de teorizar e define observação como uma interpretação teórica não contestada e quando a observação se torna teorização, e o fato científico é predominante de acordo com a cultura e está ligado a um discurso partilhado comum e para fazê-lo utilizamos sempre de um esquema teórico admitido.
Baseado na epistemologia positivista é o sujeito que conhece o objeto do conhecimento. De acordo com Popper (2008) o objeto é abordado por meio de definição de pressupostos que se devam e possam ser definidos metodologicamente, e atingimos o conhecimento positivo do objeto apenas por meio de métodos consagrados das ciências exatas. Popper entende que o “objeto” da ciência é construído pelos termos do experimento, e que finalmente, a observação é o fundamento de todo experimento científico possível.
Pensando assim, encontramos a própria armadilha, ou seja, conhecemos aquilo que nos foi deixado como legado teórico da ciência do passado e pela situação histórica e cultural desta comunidade científica. Embora estes pressupostos possam condicionar a escolha de objetos, eles podem ser filtrados do processo real de saber (ou seja, o método), e enquanto um empirismo acrítico não é rejeitado, a observação continua a ser a base de conhecimento confiável.
Ao exigir que toda a investigação científica seja objeto da falseabilidade, o método positivista restringe a investigação científica a objetos cujas definições somente possam ser operacionalizadas em termos de rigidez metodológica, deixando de fora o que não pode ser determinado.
A solução metodológica de Popper no que se refere a falseabilidade foi predominante nas ciências sociais, mas novas propostas de mudanças começam a ocorrer. Autores como Thomas Kuhn (2012) e Paul Feyerabend (1989), que também desafiaram a racionalidade das metodologias positivistas, bem como sua divisão convencional entre teoria e observação.
Kuhn (2005) introduz o conceito de ciência como elemento social, já que segundo ele, ciência é uma junção de fatos, de métodos e teorias, e que o progresso cientifico não se dá por acumulo de descobertas e inovações já que a concepção de ciência muda no decorrer do seu processo histórico sem perder seu valor cientifico.
Ele afirma que a ciência caminha através de “revoluções paradigmáticas” que ele considera “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecera problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência (KUHN, 2005, pag. 13). Quando não se dá conta do que Feyerabend (1989) chama de incomensurabilidade que nos remete a questão metodológica das ciências humanas.
Kuhn (2005) aponta para o início da revolução dos paradigmas, se modificando os paradigmas que suportam as metodologias comuns, mudando a compreensão dos fenômenos que se tentem explicar. Segundo ele. “O mundo do cientista é tanto qualitativamente transformado como quantitativamente enriquecido pelas novidades fundamentais de fatos ou teorias” (KUHN, 2005, p.26).
Reconhecem que as metodologias de inspiração positivista não forneceriam respostas para os tipos de questões sociais e políticas, especialmente relacionadas com a raça, classe, gênero e as desigualdades sexuais, e as ciências sociais e humanas começaram a refletir sobre uma reformulação metodológica, através da necessidade de uma relação conhecimento versus conhecedor contemporânea e contextualizada, ou seja, uma nova visão epistemológica.
As ciências humanas se aproximam do positivismo pela possibilidade de garantir o seu direito de produzir conhecimento, mas as ciências humanas se voltam para sua reformulação explícita que se relacione com as particularidades sociais e subjetivas. A proposta epistemológica se preocupa em investigar as condições que tornaram possível o conhecimento em primeiro lugar.
As ciências humanas estão interessadas em explorar as maneiras pelas quais o mundo é construído por estas teorias, que são culturalmente e historicamente variáveis e são usadas em interações por interlocutores socialmente em construção (BERGER E LUCKMANN, 1967), assim como os autores pós-estruturalistas ( MICHAEL FOUCAULT E GILLES DELEUZE, 1994) também oferecem uma resposta epistemológica para a crise do positivismo rejeitando verdades absolutas sobre o mundo, pois a verdade dependeria do contexto histórico de cada indivíduo.
Para Foucault (1994) a relação epistemológica se dá nas relações de poder e da produção do saber sobre o fenômeno, mas a partir de um saber histórico, não filosófico ,mas o método como processo de construção do conhecimento, ao contrário, é filosófico e não histórico buscando analisar as rupturas e continuidades num “fazer filosófico”.
A verdade do conhecimento científico no olhar foucaltiano é a verdade histórica imanente entre poder e saber (FOUCAULT, 1977), apontando a arqueologia do saber através da detecção dos discursos que se formam historicamente e como o discurso produz efeitos de verdade , verificando que efeitos de poder estão neste discurso, portanto essa verdade está na formação de subjetividade e nas relações de poder contidas nesse discurso.
4. Contra o método: a pluralidade metodológica
Considerando-se os volumes de de informação sobre o anarquismo, é frequentemente associado com a violência, terrorismo, ou o caos por seus detratores e, em muitos casos, pela auto intitulação de “anarquistas” que estão distantes da grande variedade de teorias de condução de práticas anarquistas.
O meio anarquista contemporâneo, no entanto, apresenta uma gama variada de tendências e, assim, qualquer tentativa de criar algum “anarquismo descontextualizado” está condenada ao fracasso. Há tantas variedades do anarquismo como há anarquistas, para grande consternação de alguns anarquistas e não-anarquistas igualmente.
A concepção anarquista do conhecimento está relacionada com o contexto social e a produção desse conhecimento se dá de acordo com a subjetividade daquele momento socio-histórico.
A epistemologia anarquista tem uma relação com a autorreflexão e a autocrítica estando o pesquisador voltado a mudanças relativas às necessidades daquele que irá pesquisar e dentro dessa ótica não podemos ter uma metodologia que imponha ou conduza os resultados, ao contrário da epistemologia positivista que tem dificuldades em aceitar a pluralidade de saberes, pois estabeleceu leis universais e cria uma separação destrutiva que anula e até destrói possibilidades do conhecimento.
O anarquismo se opõe fundamentalmente à dominação hierárquica, tais reivindicações de poder não seriam coerentes com qualquer concepção do anarquismo ou teoria anarquista.
Contra o método, Feyerabend (1989) afirma que alguns acontecimentos históricos tem significações não reais por ser o “conhecimento que ordena os acontecimentos”. Dessa forma, diferentes formas de conhecimento provocam diversas formas de organização social produtoras de subjetividade.
O pluralismo teórico de Feyerabend defende a comparação de ideias com procedimentos diferentes da regra através de uma metodologia pluralista e tem como tese a necessidade de máxima ampliação e não a uma teoria ideal e um objeto único e sim uma pluralidade de ideias, podendo ser incomensuráveis, sendo a análise dos contrastes e não dos fatos, pois segundo o autor a pluralidade de pensamentos oferece um aumento de liberdade dos sujeitos e dá a ciência um poder crítico.
Feyerabend (1989) através da epistemologia anarquista, não aceita a hegemonia da teoria cientifica sobre produção de conhecimento, já que para este autor, o conhecimento surge antes da teoria, e uma formulação teórica não é a única condição necessária para obtenção de conhecimento.
A concepção anarquista de conhecimento é fluida. Ela muda com as necessidades e vontade daqueles que produzem conhecimento. Esta concepção de verdade contém um componente de autorreflexão e autocrítica, sugerindo uma fluidez de forma tal que o pesquisador possa se adaptar às necessidades e perspectivas do seu objeto de conhecimento.
A epistemologia anarquista acredita em um poder de mudança no mundo tradicional, e que as teorias de ciência tradicionais conduzirão sempre o investigador por um caminho metodológico rígido, que ignora todas as formas de conhecimento e de saberes.
A incomensurabilidade tem como característica os princípios, sentidos e qualquer análise de conceitos e fenômenos que vão estar contextualizados ao seu momento histórico, logo algumas teorias científoicas podem ser completamente diferentes e por esta razão não podem ser comparados.
Feyerabend (1989) afirma que teorias devam ser comparadas, através de uma série de observações de determinadas situações relativas a sua coerência, mas, no caso de teorias que são incomensuráveis que demandam atitudes subjetivas, a escolha desses padrões estará relacionada a julgamentos estéticos, de preferências ou de situações que se relacionem ao indivíduo, logicamente ligadas ao campo subjetivo.
Concordamos com Prigogine (1997) quando esse autor declara que há o início de uma nova ciência que não se prende a situações limitadas, generalistas e simplistas. É uma ciência que nos posiciona frente a um mundo de realidades onde a criatividade humana seja a expressão de um traço fundamental baseado em sua singularidade que explique todos os níveis de natureza, ligados desta forma ao campo de subjetividade defendido por Feyerabend (1989).
5. Considerações finais
Não se pode dizer talvez que exista uma crise paradigmática e que o método qualitativo estaria sendo menos considerado, já que todos os métodos em ciências humanas são qualitativos. Se a discussão for permeada pela afirmação de crise nos modelos de ciência acabaremos aligeirando e superficializando a questão.
Pensemos o conhecimento produzido pela ciência utilizando a metáfora da flecha e da lança ambas impulsionadas pelo processo de construção do conhecimento, ou seja, o método, acreditando que a representação da verdade está na pluralidade metodológica e não no seu rigor.
O método dará força para impulsionar tanto a flecha como a lança, mas o diferencial da força motriz será dado pelas visões de mundo do cientista em conformidade com a natureza do objeto, e a relação do pesquisador com a flecha ou a lança.
O percurso da flecha ou da lança é o caminho da perspectiva ou os elementos sociais que embasarão as ações do pesquisador. Dessa forma o que define o percurso da flecha não é o alvo e sim a natureza teórica do conhecimento, se exato, natural ou humano, que talvez até diminua a velocidade e a distância percorrida por essa flecha que está focada no alvo.
Em casos em que as ciências humanas maximizam a questão metodológica imitando métodos positivistas a flecha deixa de existir e se transforma em lança, que é mais pesada e percorre menores percursos com velocidade reduzida.
A verdade do método em ciências sociais está exatamente na pluralidade de possibilidades metodológicas que as ciências humanas podem oferecer, como plural é o ser humano. Assim, impulsionamos com força a flecha que voará diretamente para o grande alvo do conhecimento que é a redenção do humano das trevas da ignorância.
6 Referências bibliográficas
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